Por Alexandre Rocha – Tema sugerido por @evavieiira.

Você pode ter chegado até aqui um tanto curioso, tentando imaginar que tipo de conexão poderia haver entre a educação no Brasil e um negócio de marketing e comunicação. A realidade é que não é preciso muito esforço para perceber várias conexões bastante sólidas despontando no horizonte.

Infelizmente, a educação de forma ampla não é algo que cause uma identificação imediata com o Brasil, principalmente diante do brilho do nosso jeito moleque com a bola nos pés, a potência no vôlei, as praias que recarregam as baterias de qualquer #AlmaSolar, e principalmente do carnaval, ah, o carnaval!

Mas, se por um lado tem bastante coisa por aqui capaz de chamar muito mais atenção do que a educação, por outro, há muita gente guerreira que ascende da origem mais humilde, para um dia se tornar doutor. E sim, poderíamos dizer que é um feito heroico, considerando que há cerca de três anos haviam no país 11,8 milhões de analfabetos, índice equivalente a 7,2% da população de 15 anos ou mais¹.

Ainda considerando uma janela de três anos, segundo o IBGE², metade dos nossos compatriotas possuíam apenas o ensino fundamental, com negros e pardos enfrentando as piores condições. A essa altura, se você conseguiu concluir o ensino superior, já pode comemorar fazer parte dos 15% “diplomados” da população³.

Números e índices a parte, o cidadão vem ganhando cada vez mais consciência sobre o poder libertador da educação para a construção de uma nova história, ao mesmo tempo em que ela, a educação surge cada vez mais como negócio bastante lucrativo, diante do cobertor curto do governo que, ano após ano, falha em cobrir a todos.

Apesar do aumento na disponibilidade de instituições de ensino, e da popularização do ensino superior a custos mais baixos impulsionada pela tecnologia e inovação, o brasileiro vem pagando mais caro justamente pela sua falta de educação (repare que neste ponto, estou de fato diferenciando educação e qualificação).

Quando fui atrás do meu diploma de nível superior, por exemplo, os cursos já poderiam ser concluídos em dois anos e meio, um verdadeiro passeio no parquinho, diante da jornada dos prezados doutores do Direito. Hoje, pouco mais de dez anos depois, há nas mídias sociais um tsunami de “formações” em diversas áreas, preparando (em horas!) profissionais do futuro para atuações brilhantes no mercado moderno ou em seus próprios empreendimentos.

O mundo mudou e a informação circula com mais velocidade, aceitamos de bom grado investir muito dinheiro (mas não muito tempo) em qualificações pontuais, que resultam no que pode vir a ser a geração de especialistas mais genéricos de todos os tempos. Estamos nos deixando levar perigosamente pelo efeito manada na direção para onde os famosos Ads e tantos “digital influencers” nos impulsionam.

Estamos não só buscando desesperadamente formações relâmpago (e cada vez mais sem sentido!), como alimentamos mecanismos lucrativos que “fatiam” os fundamentos em pequenos módulos, webinars e palestras com salas cheias e ingressos.

Estamos pagando para aprender a atingir a felicidade, vender mais pelo WhatsApp ou até mesmo enriquecer largando o emprego. É fato que estamos muito distantes de onde deveríamos, quando o assunto é a educação no país, por isso é extremamente importante encarar um período de correção, para que os minimamente esclarecidos recobrem a consciência do quão importante são os fundamentos e a construção de bases sólidas pra o conhecimento. Neste ponto, me refiro aos caminhos mais variados, que surgem principalmente nos meios digitais para encurtar o caminho até o conhecimento.

Permitir um distanciamento do pensamento crítico, e da curiosidade que nos leva a pesquisar a fundo sobre um assunto é algo que aumenta consideravelmente as chances de eventuais tropeços por conta de decisões vagas, tomadas sem uma boa base de conhecimento. Felizmente, ainda que a educação possa estar ameaçada por uma grande série de gurus e produtos digitais, qualquer um pode despertar para uma nova visão de mundo e qualificação, para construir sua diferenciação através de decisões simples como investir de maneira contínua no próprio desenvolvimento (clique aqui em caso de dúvida sobre minha afirmação).

Por mais que haja quem pense o contrário, para que tenhamos alguma chance de viver um futuro melhor de fato, precisamos passar a compreender a educação como algo vital para o desenvolvimento humano, ao invés de um meio para obter um emprego melhor e conseguir mais dinheiro. Sabe-se que no mercado de trabalho é bem comum ouvir frases como “ninguém é insubstituível”, mas diante do fato de que ainda não há meio de enlatar o conhecimento daquele que o detém, é no mínimo muito trabalhoso buscar um profissional à altura daquele que é obcecado por sua própria evolução contínua.

Constituição Federal (Texto promulgado em 05 de outubro de 1988)

Título VIII    
Da Ordem Social

Capítulo III    
Da Educação, da Cultura e do Desporto

Seção I    
Da Educação

Art. 205. A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho.

Referências

¹ Paula Ferreira. O Globo. Brasil ainda tem 11,8 milhões de analfabetos, segundo IBGE. Disponível em: https://oglobo.globo.com/sociedade/educacao/brasil-ainda-tem-118-milhoes-de-analfabetos-segundo-ibge-22211755

² Estadão. Metade dos brasileiros só tem ensino fundamental, diz IBGE. Disponível em: https://veja.abril.com.br/economia/metade-dos-brasileiros-nao-tem-ensino-fundamental-diz-ibge/

³ Alexandre Parrode. Jornal Opção. Apenas 15% dos brasileiros têm ensino superior completo, mostra IBGE. Disponível em: https://www.jornalopcao.com.br/ultimas-noticias/apenas-15-dos-brasileiros-tem-ensino-superior-completo-mostra-ibge-113091/

4 Senado. Constituição Federal (Texto promulgado em 05 de outubro de 1988). Disponível em: http://www.senado.leg.br/atividade/const/con1988/CON1988_05.10.1988/ind.asp

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